Blog do Raul

EUA

REINDUSTRIALIZAR O BRASIL É URGENTE

Empregos, salários e desenvolvimento social.

A pergunta que não se cala na Baixada Santista, e no resto do país: o que aconteceu com o decrescimento e o quase desaparecimento da indústria nacional? Embora o tema não seja exclusivo do Brasil, os novos governos – federal e estaduais – a partir de 1.º de janeiro precisam responder.

Donald Trump, na sua primeira eleição nos EUA, tinha o discurso da retomada da industrialização no solo americano, sintonizado com outros países desenvolvidos ou em desenvolvimento, preocupados com a importância das indústrias como motor da economia, geração de empregos, melhores salários, extensão de divisas, receitas tributárias, mas… ficou só na promessa.

As indústrias deviam ser vistas sempre como emergentes e a reindustrialização urgente, no entanto, pela inanição governamental, quase sumiram no mapa do nosso país. E o pior: também sumiram vozes e ações contra o fim de suas produções e o desemprego.

A Revolução Industrial, iniciada na Inglaterra, trouxe para a indústria o poder antes exercido pela agropecuária. Organizações como a FIESP ou a própria Confederação Nacional da Indústria – CNI, no Brasil, ou sua similar no Japão, a Kendaren, sempre foram interlocutoras das regras econômicas com os seus respectivos governos. Agora, qualquer decisão da área econômica passa pelo que o “mercado acha”. O tal do “mercado financeiro”, intangível, tornou-se um Deus muito temido.

Para explicar a perda do protagonismo da indústria, precisamos tratar tecnicamente das mudanças globais para o seu entendimento. Tendo o mercado financeiro como detentor de diretrizes econômicas, voltamos a 1930, quando as exportações eram apenas de comodities, sem nenhum valor agregado. E é justamente contra esse papel irrelevante para as nossas indústrias, que insurgimos e conclamamos os novos governos a mudar esse comportamento passivo.

O poder das empresas industriais mudou a partir de decisões de Ronald Reagan, nos EUA, e Margareth Thatcher, na Grã-Bretanha. Em 1982, Reagan assina o “Garn-St Germain ACT”, que flexibiliza o setor financeiro americano. Thatcher, em 1986, altera as normas da Bolsa de Londres, permitindo a participação de instituições financeiras estrangeiras nos seus negócios. Em 1999, Bill Clinton revoga o “Glass Steagall ACT”, que restringia às instituições financeiras o uso desses recursos em operações especulativas. Isso acelera o processo de declínio do poder industrial.

Hoje em dia vivemos o reflexo da influência do mercado financeiro em nossas vidas, como o exemplo entre dois compradores de um carro: um pode pagar à vista e o outro só a prazo. Há pouco tempo, o vendedor não hesitaria escolher o primeiro, mas agora quer vender para aquele que quer pagar a prazo. Porque a instituição financeira pagará ao vendedor o que se convenciona chamar de taxa de retorno sobre o financiamento. Ele terá “dois lucros”: do carro vendido e da taxa de retorno do banco. O vendedor prioriza a venda de um crediário, enquanto o carro ou eletrodoméstico são só meios para o negócio.

Os industriais se tornaram rentistas. Os seus lucros são aplicados no mercado e não na modernização do empreendimento. Assim, indústrias vão se sucateando e resta a importação. Para quê milhares de empregados, investimentos em prédios, galpões e equipamentos? Os custos de importação são menores e ninguém quer se industrializar aqui, alegando o complexo sistema tributário, taxas e impostos, não é mesmo? Vamos pautar essa questão?

(*) NOTA: Esse artigo foi escrito a quatro mãos com o professor de Geopolítica, Carlos Alberto Tavares Laureano.

Sabe o que é disruptivo?

Interrompe curso natural.

Ouvi pela primeira vez o termo “disrupção”, quando acompanhava palestra de uma de minhas filhas a estudantes e trainees da área de marketing, durante a pandemia. Juro que nunca ouvira antes e me apressei a buscar o significado no google e leituras específicas para ter uma ideia de onde ele se aplicaria.

Não é novo, mas pode-se dizer que é uma palavra da moda, sempre que se observa uma inovação em um produto ou serviço geradores de um novo mercado e que desestabilizam os concorrentes que antes o dominavam. Essa palavra está por trás das mudanças no mundo empresarial, na forma como consumimos produtos e serviços e no sucesso de empresas top do ramo tecnológico.

O termo foi batizado pelo professor Clayton Christensen, da Universidade Harvard, nos Estados Unidos, em um artigo publicado em 1995, que no bom português o seu significado está associado ao ato de romper, de interromper o curso natural, de gerar uma ruptura. A etimologia da palavra disrupção vem do latim disruptio.onis, ou seja, fratura, quebra.

Encontrei nessa pesquisa rápida para compartilhar aqui, que “disrupção” é substantivo feminino, que pode ser também perturbação, no sentido figurado, ou o salto de uma faísca entre dois corpos carregados de eletricidade. Mas com todos esses significados e significantes, o termo é usado coloquialmente mesmo no mercado empresarial e onde vivem os verdadeiros gestores do mundo globalizado.

Sempre me lembro dos tempos em que oferecíamos alguma resistência à globalização, teoricamente ou com algumas mobilizações mundo afora. A globalização remonta a era das grandes navegações e descobertas no século 16, quando houve o registro das crescentes trocas comerciais entre nações. Seu significado está associado à expansão econômica, política e cultural em todo o mundo.

De que forma? Com a aculturação, fundindo culturas, em decorrência do contato continuado, provocando a modificação cultural do indivíduo, grupo ou povo que se adapta a outra cultura ou dela retira traços significativos. Criação de blocos econômicos, expansão do capitalismo, presença de multinacionais, maior propagação de conhecimentos.

Nos anos 1990, os antiglobalistas propunham alternativas ao regime econômico capitalista neoliberal e aos blocos comerciais como o NAFTA – Acordo de Livre Comércio da América do Norte e a ALCA – Acordo de Livre Comércio das Américas, com o capitalismo keynesiano (protecionismo e equilíbrio econômico, intervenção estatal na economia, benefícios sociais etc), o socialismo, o comunismo, a anarquia e o fascismo, entre outras propostas mais inovadores, centradas nas necessidades da sociedade para combater as alterações climáticas, os danos ao meio ambiente e aos direitos humanos etc.

Contextualizando, para os nossos dias, em que o mundo se globalizou, por causa principalmente das inúmeras tantas facilidades tecnológicas, veja agora que esses horizontes não estão restritos ao planeta Terra, quando conhecemos as intenções e os planos do comprador do Twitter, Elon Musk, que se tornou a pessoa mais rica do mundo, em 2021, segundo a Bloomberg; mas no ranking da Forbes, em 2022, Musk ocupa o segundo lugar.

Ele é dono também da Tesla, fabricante de carros elétricos, e da Spacex, a primeira empresa no mundo a vender um voo comercial à Lua (marcado para 2013, mas não aconteceu) e a desenvolver um projeto multiplanetário, específico para a colonização de Marte, e para o desenvolvimento seguro da inteligência artificial.

Voltando, pois, à “disrupção”, vale trazer à reflexão as também chamadas “tecnologias disruptivas”, que consideram o estágio da qualidade inferior das inovações em relação aos produtos líderes do mercado, e que ganham terreno e prevalecem, globalizam. Como o Youtube, que abriu oportunidade aos vídeos caseiros e surpreendeu estúdios e produtoras; as câmeras digitais, desdenhadas pelos fotógrafos profissionais pela qualidade ruim das realizadas por amadores; as plataformas Netflix, Now, Amazon etc, que permitem o acesso online a filmes, documentários e séries, colocando uma pá de cal nas locadoras de vídeos, e por aí vai.

A internet tem sido um terreno fértil para reviravoltas e é humanamente impossível reagir contra os que nos batizam assertivamente de “metamorfoses ambulantes”. Eu prefiro, “do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo”, né Raul Seixas, meu xará!?

Todavia a paz é melhor para o Mundo

Guerras não são bem-vindas. (Foto: Anna Moneymaker – Getty Images)

Desde o fim da Guerra Fria, em 1991, a União Soviética e os Estados Unidos não se estranhavam e ficavam literalmente em pé de guerra como agora, por conta da invasão da Ucrânia pela Rússia. Esse que não é um mero detalhe na história do mundo deve ser trazido à baila para tentar entender melhor o que está acontecendo e provocando um verdadeiro estado de insegurança em todos nós.

Vejo que governantes e partidos estão tropeçando nas suas falas sobre os acontecimentos, porque a cultura da paz deve prevalecer. E isso não é só o politicamente correto, marcando a sua posição. Mas uma condição de continuar respeitando a sociedade que já vem apavorada pela pandemia do Covid-19 e que não percebe o grau de manipulação a que está sujeita. A Ucrânia é um detalhe que comove o mundo diante da violência e dos efeitos de um ensaiado ataque genocida, que por ora se sobressai com a cena de um tanque atropelando um automóvel civil, guiado por um motorista idoso, nos arredores de Kiev.

A União Soviética foi extinta em 1991 e Vladimir Putin com a sua decisão de realizar uma “operação militar especial” que se diz sintonizada com o artigo 51 da Carta das Nações Unidas (da legitima defesa individual ou coletiva dos países membros), apesar de induzir geral à intenção de reintegrar territórios separados, alega que quer desmilitarizar a região que descumpre o Protocolo de Minsk. Esse documento é um acordo assinado em setembro de 2014, para por fim à guerra no leste da Ucrânia, onde há separatistas em busca de formação de um outro país.

Acho importante o conhecimento da história, para compreender inclusive que no momento agudo em que estamos vivendo, à flor da pele, qualquer demonstração de força bélica pode ameaçar um conflito mundial e de proporções que sempre nos atormentaram. Certa vez escrevi um texto sobre ter crescido na adolescência, motivado pela linha tênue da Guerra Fria, achando que uma 3.ª Grande Guerra nos dizimaria. Confesso que, assistindo aos movimentos de Putin e as contrarreações de lideres mundiais, a cultura da paz prevalecerá, porém é fundamental que todos pudessem conhecer mais sobre os avanços de bases militares e zonas de influência de países como os Estados Unidos, com o respaldo da OTAN – Organização do Tratado do Atlântico Norte.

Estados Unidos e União Soviética foram aliados na luta contra a Alemanha nazista na 2.ª Grande Guerra, de 1939 a 1945, e logo após a vitória se tornaram adversários até 1991. Chamou-se de Guerra Fria porque não houve uma guerra ou conflitos entre as superpotências, uma vez que seria inimaginável restar o Mundo ante uma batalha nuclear, porque houve uma corrida armamentista para a construção de um grande arsenal de armas nucleares nos primeiros 20 anos desse conflito de ideologias defendidas por cada uma.

Vale perceber nesse entendimento, que a rivalidade se distinguia das incompatibilidades, da defesa norte-americana do capitalismo, da democracia, da propriedade privada, da livre iniciativa; enquanto a União Soviética queria o socialismo, o fim da propriedade privada, a igualdade econômica, um Estado forte para garantir as necessidades básicas do povo. Hoje em dia essas ditas incompatibilidades povoam o imaginário político global, polarizando disputas eleitorais em todos os continentes.

Posto isso, o episódio global e histórico que estamos testemunhando, com o encaminhamento de tropas a Ucrânia, somado de sanções econômicas a Rússia, que já recebeu sinais de apoio da China, que possui força econômica, tecnológica e o maior exército do mundo, incomoda geral. Era difícil de imaginar que ocorresse durante a pandemia do novo coronavírus, mas nada é impossível hoje em dia.

Que a paz é a melhor bandeira para se hastear no mundo, isso é indiscutível. No entanto, como nos proteger da angústia que nos toma diante de ameaças genocidas? Importa conhecer que há um poderio de influência política, econômica e ideológica em curso, em todo esse mundo. E não se trata de uma questão plebiscitaria, de tomar um lado da questão e pronto. Com a paz mundial é mais possível compreender que cada pessoa é um agente transformador, um cidadão, capaz de fazer mudanças, sem mais manipulações.

Artigo publicado no site do “Jornal da Orla” de Santos, espaço de colunistas, Um Olhar Sobre o Mundo, em 25 de fevereiro de 2022.

Brasil inova, com ciência e educação

O caminho da estratégia.

Os exemplos estão escancarados mundo afora, justificando que investir em educação, ciência, tecnologia e inovação deve ser tarefa essencial para garantir um país mais desenvolvido tanto no plano econômico quanto social. No Brasil, 95% das pesquisas são produzidas pelas universidades públicas, mas esse desempenho parece não importar quando saímos da esfera acadêmica e constatamos a realidade do mundo político atual.

Infelizmente não é surpresa ler que devido à falta de verbas, universidades federais como a UFRJ, uma das instituições mais importantes do país, pode fechar prédios e realizar rodízio em suas instalações. E o comprometimento do funcionamento de muitas outras pelo mesmo problema é revelado em praticamente todas as unidades da federação. O corte orçamentário de 2021, comparado a 2020, chegou a 18,2% para custeio, 22,8% nos recursos de capital e 18,3% na assistência estudantil.

Na semana passada, uma notícia importante adveio do leilão da nova geração de internet móvel – 5G – com a movimentação de 47,2 bilhões de reais e o compromisso das empresas em executar entre as contrapartidas de investimentos, a colocação de internet nas escolas públicas de todo o país. Se isso acontecer de fato, haverá um impulso histórico para a diminuição da desigualdade existente no desempenho dos estudantes, que durante a pandemia ficaram ainda mais para trás no aprendizado, dadas as dificuldades com o ensino à distância.

Contudo, é preciso ter em mente que uma parcela importante das escolas públicas brasileiras, que não tem internet, também não possui energia elétrica, água potável, saneamento básico. Esse quadro precisa ser considerado quando se busca responder “o que o Brasil quer ser”. Então, como os governos e legislativos avançarão em macro políticas em busca da qualificação, como fazem os países considerados mais ricos, como EUA e Alemanha, e também nos que vem se desenvolvendo mais rapidamente nos últimos anos como China, Coreia do Sul e Cingapura?

No Brasil parece que não há garantias à educação, ciência e pesquisa, por conta dos bloqueios e cortes orçamentários. Isso explica o motivo de não contar com conglomerados Apple, Google, Tesla, Huawei, Pfizer e Moderna. A negligência nacional é tanta que provoca a “fuga de cérebros” para países que valorizam a educação como valor fundamental e tratam a inovação como mola propulsora do desenvolvimento social, financeiro e econômico.

Olhando para o mundo, o presidente norte-americano Joe Biden tem dito que “Wall Street não construiu os EUA”. Por si só essa afirmativa devia orientar determinados responsáveis por nossa economia, para justificar que determinadas medidas governamentais não agradaram ao mercado. Mercado dos fundos de investimento, Bolsa de Valores, bancos, onde o dinheiro gira, mas se distancia da economia real, movimentada pela produção industrial, de serviços e do comércio.

Essa a insegurança dos industriais no Brasil, que é preciso acabar e que têm que ter garantias que o jogo econômico ao seu redor não mude ao sabor do humor do governante federal de plantão. Só assim, o industrial deixará de ser rentista.

Ao fechar essa trilogia de reflexões, nos inspira a iniciativa de Biden, com o seu plano Build Back Better (“construir de volta e melhor”). Quem sabe, conforme o tamanho do nosso bolso, elas se reproduzam no Brasil, na infraestrutura, com reforço da frente industrial e de energia limpa, para a geração de empregos, auxilio emergencial a famílias de renda média e baixa, como lema para se ter uma economia forte no pós-pandemia.

Artigo publicado na edição de 09 de novembro de 2021, do jornal “A Tribuna de Santos”, na seção Tribuna Livre.

Brasil que fica pra trás

O sentido é figurado.

No momento em que escrevo este artigo, o atual presidente do Brasil não participa da 26.ª edição da Conferência das Nações Unidas para Mudanças Climáticas (COP26), em Glasgow, na Escócia. Líderes de todo o Mundo estão lá para reafirmar as suas metas climáticas e limitar o aquecimento global, sendo um importante indicador para a convivência do desenvolvimento econômico com a proteção das suas comunidades e hábitats, estabelecendo a cooperação entre governos e sociedade civil.

Ora, o Brasil vinha ocupando papel de destaque na recuperação do tempo perdido em defesa das suas florestas e mananciais, como manda o figurino das melhores práticas ambientais em nosso planeta. Isso travou. Porque a pandemia não interrompeu o aquecimento global e nessa retomada das atividades econômicas, com a transformação dos modos e fazeres, o nosso país sente os impactos do atraso, justamente pelo atraso tecnológico.

A perda da capacidade de emprego no Brasil será muito grande e pode chegar a 50, 60% de postos de trabalho extintos. Por isso mesmo não se justifica minimizar a importância das realizações, tanto da reunião do G-20, na Itália, quanto a COP26, na Escócia, como insultam certos negacionistas. O mundo está em transição energética. De formas poluentes para formas não poluentes e que não impactem negativamente o meio ambiente.

A pergunta que resulta disso é: “e o que isso tem a ver com os empregos?” Respondo, a partir dos exemplos da indústria automotiva. A Tesla, empresa automotiva e de armazenamento de energia norte americana, que desenvolve, produz e vende automóveis elétricos de alto desempenho, por exemplo, ainda que essa produção seja menor, em relação a General Motors (GM) e Ford juntas, vale, em termos de mercado financeiro, mais que a soma dessas duas grandes produtoras de veículos.

A Volkswagen anunciou em 2018, que estava investindo 3,5 bilhões de euros (cerca de R$ 22 bilhões), no desenvolvimento de novas tecnologias de mobilidade urbana, para produtos como armazenamento de informações em nuvens, para veículos conectados e serviços de compartilhamento de carros. Em março deste ano, a Volvo anunciou a intenção de ser totalmente elétrica até 2030; e a GM já informou que até 2035 será 100% elétrica.

Independentemente se o carro será movido por baterias elétricas ou a hidrogênio, só nesse segmento automotivo, no Brasil, milhares de empregos serão extintos e centenas de empresas que fornecem produtos “tradicionais” para as montadoras terão as suas portas fechadas. Vejam bem: em um carro elétrico, o sistema de transmissão subsistirá? Se não subsistirá, quantas empresas fornecedoras de peças de transmissão fecharão? Quantos empregos serão extintos?

Faz parte do desenvolvimento, e é inevitável, o surgimento de inteligência artificial, robôs, drones, além de cidades, casas, ônibus, caminhões, tratores e carros inteligentes, sempre substituindo mão de obra e extinguindo empresas fornecedoras tradicionais. Como escrevi no artigo anterior, “Brasil que não faz”, a China planejou o seu futuro e produz, produtos reais. Não se preocupou com aquilo que se denomina “mercado”, que na realidade é o mercado financeiro.

E o que se discute no Brasil a partir de Brasília? Atualmente, dependemos tão somente da agropecuária, como era antes de 1940, com a política do café com leite. Teve que ter uma revolução, com Getúlio, para se planejar e implantar a indústria brasileira. E agora, qual a política industrial? Qual a política educacional perante esses não tão novos desafios? Como o Brasil vai lidar com as empresas que não subsistirão?

Artigo publicado na edição de 02 de novembro de 2021, do jornal “A Tribuna de Santos”, na seção Tribuna Livre.

Brasil que não faz

Chaplin, em “Tempos Modernos”, transformação na indústria.

A China não se tornou a economia mais forte do mundo por acaso. Para atingir a esse patamar, começou a planejar há pelo menos 30 anos. Tomo como base o raciocínio de que os números geralmente são relativos e que a realidade deles pode não apresentar consistências, no entanto é possível afirmar que a China é, simplesmente, uma das maiores forças econômicas do planeta, sem exageros.

Enquanto isso há no Brasil uma certa miopia, quando se mira na China de maneira rasa ou se pretende resumir a visão dessa potência a uma mera confusão sobre conceitos e ações entre direita-esquerda. Os gurus do atual governo do Brasil não são apenas negacionistas, mas uma negação, na compreensão da realidade de um modo geral.

A China produz de tudo para todos os países, enquanto o Brasil ainda não tem noção do que pretender ser. Mas o mundo não está esperando muito daqui, conforme o andar da carruagem. Será que não enxergam os movimentos internacionais e como o país está literalmente jogado na vanguarda do atraso?

Vamos aos dados consistentes do cenário macroeconômico: até 2035, quase metade dos empregos existentes no Japão serão extintos em função das novas tecnologias, indica a consultoria Nomura Research Institute, a maior empresa de pesquisa econômica daquele país. De outro lado, nos Estados Unidos, metade dos atuais empregos estão desaparecendo e sumirão no mapa nos próximos 20 anos. E no Reino Unido, conforme estudo da Universidade de Oxford, 35% dos empregos atuais serão extintos nesse mesmo período.

A pergunta que não cala é sobre a compensação desse desemprego planetário, de quantos empregos novos surgirão dessa transformação que podemos batizar de 5.ª ou 6.ª revoluções industriais? Evidentemente, muitos, mas muito menos dos que serão extintos.

Para entender a essa complexidade, é essencial que os planejadores tenham em mente qual o nível de exigência para a formação educacional desses novos empregos. Ainda que essas projeções estejam restritas à análise em relação às demandas de países altamente desenvolvidos, na contramão do Brasil; atrasado tecnologicamente e mercê de impactos ainda maiores para o mal.

Enfim, às vésperas de um ano de eleição para a presidência da República, o Brasil caminhará inacabado para um novo momento, sem realizar a lição de casa. Pior que isso, evidenciando um comportamento tão errático do governo atual na condução da sua política diplomática, ora em relação às parcerias econômicas, ora em respeito ao consenso global de que somente a vacinação em massa projeta a sobrevivência das pessoas e a volta à normalidade.

A ideia é escrever uma trilogia de artigos, para tentar responder “o que o Brasil quer ser”. No próximo vamos tratar sobre temas que estão sob o guarda-chuvas da sigla ESG, em inglês, para “environmental, social and governance” (ambiental, social e governança, em português), geralmente usada para referir às melhores práticas ambientais, sociais e de governança de um negócio, mas que também pode ser um critério para investimentos.

Artigo publicado na edição de 26 de outubro de 2021, do jornal “A Tribuna de Santos”, na seção Tribuna Livre.

O Brasil para os jovens

Jovens x geração “nem-nem”, fora do mercado de trabalho e das escolas e faculdades. Ilustração: CIEE

 

 

 

 

 

 

Qual vai ser a resposta do Brasil à sua juventude? É o que esperam 45% dos brasileiros, integrantes da faixa adulta, entre 20 e 59 anos de idade, de uma população de 211,7 milhões de pessoas, estimada pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), com base em levantamento feito até o último dia 1.º de julho.

A incerteza econômica provocada pela quarentena do novo coronavírus acrescenta outros elementos a essa análise: o índice de desemprego no país cresce, hoje representa 14,3% – com mais de 13,7 milhões de pessoas desocupadas –, sendo que 29,7% são jovens, de 18 a 24 anos; e 265 mil estudantes de faculdades particulares abandonaram os cursos ou trancaram as suas matrículas, nos meses de abril e maio deste ano.

O cenário deve ser considerado em todos os níveis governamentais, uma vez que essa falta de perspectiva da nossa juventude para o futuro é um tiro mortal na retomada da produtividade do nosso país. Com os números oficiais do IBGE temos a dimensão do problema, que se agrava diante da massa juvenil sem qualificação necessária para o acesso ao primeiro empregou ou a reinserção no mercado de trabalho.

Não é um conforto para o Brasil, a comparação com os Estados Unidos e a Europa, utilizada por especialistas em análise do mercado de trabalho em tempos dessa pandemia. O fenômeno é mundial, quando se observa o impacto das crises na juventude, e caberá à governança estatal o desenho e execução urgentes de políticas públicas com vistas à uma distribuição de renda compensatória e de estímulo à formação técnica e profissional que atendam aos investimentos com propósito.

A evasão das faculdades particulares não é um bom sinal sobre os propósitos atuais da juventude brasileira, que sempre buscou nesse tipo de matrícula e formação um plus na escolha de seus currículos para as oportunidades de emprego e renda no país. A queda das receitas pessoais e familiares, com o desemprego e a diminuição drástica das atividades econômicas, em princípio tem sido a maior razão para excluir as mensalidades escolares dos orçamentos.

Inclui-se nessa realidade o número de transferências de alunos de escolas particulares paulistas para a rede estadual de ensino, entre janeiro e agosto deste ano, atingindo a marca de 12 mil matrículas. Então, o momento exige uma reação, para não perder todos os esforços que já foram mobilizados nos últimos anos, para a universalização das matrículas das crianças no ensino fundamental, a redução do déficit de vagas no ensino infantil, a reforma do ensino médio, a expansão do ensino profissional para o emprego, o Fundeb, a BNCC, o financiamento do ensino superior com o FIES e o Prouni etc.

Acredito que o Ministério da Educação tenha esse quadro disponível e sei que o Conselho Nacional de Educação está empenhado na aprovação de diretrizes para o novo normal, que prevê o funcionamento das atividades gerais do ensino, presencial, remoto, híbrido, investimentos, que compatibilizem com os protocolos estabelecidos no combate ao Covid19.

Também o Ministério da Economia precisa ter a sua ação sobre a redução dos custos com contratações para o primeiro emprego, porque hoje esses custos não apresentam diferença entre os que estão no começo do trabalho e os trabalhadores com experiência e qualificação.

Enfim, estas reflexões, que poderiam ser centrais nos debates das eleições municipais de 2020, não compuseram a maioria das agendas e programas dos candidatos a prefeitos e a vereadores. Mas são um bom início de conversa, entre governos e parlamentos – nos três níveis – e o setor privado, que pode ampliar a produção, pagando menos por isso, mas empregando mais hoje e no futuro que tem chegado rápido demais para todos nós.

Eu, manipulado!?

O esboço da reação lembra Davi versus Golias.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

No último fim de semana, assisti ao filme-documentário “Dilema das redes”, na plataforma Netflix, que denuncia o mau uso de nossos dados pessoais pelo Google, Facebook, Twitter, Instagram e várias outras mais. Há depoimentos de designers, engenheiros de software e programadores do Vale do Silício, que ajudaram a construir esse sistema que hoje nos controla. São os chamados algoritmos em ação, interferindo em eleições, movimentos sociais, economia, se aproveitando de nós, pessoas tratadas como máquinas de compras e comportamento.

Não há inocentes nessa área, mas com certeza muitos telespectadores vão achar que, fazer parte de uma rede social e marcar de acordo com aquelas condições de contrato de acesso que consentimos sem ler, é como pactuar com o Diabo. No mesmo espaço em que compartilhamos fotos de nossos netos felizes, a composição de um prato de comida, há uma inteligência programada para mexer com os seus instintos.

Parecemos ingênuos, porque no fundo temos preguiça diante do ritmo que as novas tecnologias nos proporcionam, a pretexto de facilitar as nossas vidas. Movimentos, mundo afora, sempre denunciaram esses perigos para a privacidade dos cidadãos. Carole Cadwalladr, redatora do periódico inglês ‘The Observer’, relata no “Privacidade hackeada”, que também assisti na sequência do “Dilema das redes”, a existência de uma “força tenebrosa que nos conecta globalmente, e flui pelas plataformas tecnológicas”. O acesso à transparência, no caso dos filmes sobre o mesmo tema, serve apenas aos poderosos.

Uso as redes sociais não porque são modinha global. Tenho amigos que ainda não possuem um aparelho de telefone celular ou ignoram as redes sociais porque alegam que não precisam delas nas suas atividades, inclusive profissionais. Mas aí há um dilema: uma parte significativa desses meus amigos são da área das comunicações, consumistas da imprensa tradicional – papel, rádio, TV e portais correlatos, e hoje é praticamente impossível atuar nela sem o uso mínimo das ferramentas digitais e redes virtuais.

Se você tiver um mínimo discernimento e refletir sobre o que busca efetivamente nas redes sociais, para o seu uso pessoal e nas atividades laborais, de trabalho, o filme “Dilema das redes” vai ajudar a se localizar no contexto. Alerto que, em termos de conhecer os níveis de manipulação a que as pessoas em rede se sujeitam, assistindo a esse filme, você pode até resolver diminuir o seu tempo de conectividade diária.

Carole provoca os que chama de “deuses do Vale do Silício” – Mark Zuckerberg e Sheryl Sandberg (Facebook), Larry Page e Sergey Brin (Google) e Jack Dorsey (Twitter) – com uma bateria de perguntas, a partir da constatação: “Porque se propuseram a conectar as pessoas e estão se recusando a reconhecer que essa mesma tecnologia está agora nos afastando. E o que não parecem entender é que isso é maior do que qualquer um de nós. E não é que isso é maior do que vocês e é maior do que qualquer um de nós. E não é sobre direita ou esquerda, ficar ou largar, ou Trump ou não. É sobre se é realmente possível termos novamente eleições livres e justas”. E dispara: “É isso o que querem? É assim que querem ser lembrados na história? Como servos do autoritarismo? E a minha pergunta para todos os outros, é isso que queremos? Ficarmos sentados brincando em nossos telefones até a treva chegar?”, sentenciou e redatora do “The Observer”.

Não deixem de ver o filme “Dilemas da rede”, complementando como eu, com “Privacidade Hackeada”, também na Netflix, que detalha em parte o que a empresa de dados Cambridge Analytica fez para interferir na campanha eleitoral de 2016, nos EUA, quando Donald Trump se elegeu. Inclua no seu cardápio, “Rede do ódio”, que singulariza a manipulação através de um jovem familiarizado com as fake news e a destruição de reputações. Não se iguala ao dois que destaco neste post, mas que poderia tornar uma trilogia do momento, para se assistir e tirar cada um as suas próprias conclusões. Certamente o tema não se esgotará nessas três versões.

Mas, por falar em conteúdos tenebrosos, manipuláveis, não será surpresa se o raciocínio teórico conspiratório começar a achar que a testagem positiva de Donald Trump e a sua esposa para o Covid19, for comparada à facada em Jair Bolsonaro na campanha presidencial de 2018 no Brasil. Enfim, recomendo que assistam aos filmes e depois pensem melhor antes de sair curtindo e distribuindo likes em fake news ou anúncios nas redes que você participa “inocentemente”. Cuidado, contudo, porque alguém está de olho em você. Na sua imagem, comportamentos, mobilidades. No que pensa. Na maioria das vezes querendo que você passe a querer consumir…