Adeus, Professor Paulo Renato !

Estou chocado com a morte de Paulo Renato Costa Souza, um homem que aprendi a admirar quando passei a conhecer a sua capacidade de trabalho e dedicação na Secretaria de Estado da Educação de São Paulo, durante o governo de Franco Montoro, em 1985. Dez anos mais tarde, no governo Fernando Henrique Cardoso, tive a honra de fazer parte da sua equipe no Ministério da Educação em Brasília. No começo da madrugada deste domingo (26), fui avisado pela também amiga Gilda Portugal Gouvea, que Paulo Renato passava o feriado em um hotel no município de São Roque e teve um infarto fulminante.

Registrei o meu primeiro impacto de tristeza no twitter. Repassei a informação por telefone a colegas da nossa equipe de trabalho dos últimos 25 anos. Começo a ler as repercussões na internet e na Globo News. Mas confesso que até agora minha ficha não caiu. Relembro a morte do ex-prefeito de Campinas e também amigo de Paulo Renato, José Roberto Magalhães Teixeira (Grama), em 1996. Ambos eram muito ligados, mas quando Grama morreu, depois de enfrentar doença que fragilizava o seu organismo, Paulo Renato me pediu que o ajudasse a escrever um artigo sobre a importância dele para Campinas e para o nosso campo de atuação política, que seria publicado na Folha de São Paulo. Estou tão catatônico quanto daquela vez. Não vamos mais comemorar juntos o nosso aniversário no dia 10 de setembro (ele completaria 66 anos em 2011), meu sempre chefe, meu grande amigo.

Meu impulso agora é o de me vestir e subir a serra para São Paulo, ajudar no desembaraço burocrático e nas providências para que todos possam prestar a sua última homenagem a um grande homem; o melhor chefe que tive em toda a minha história de vida profissional e política. Fui informado que já estão cumprindo esse papel e não serei útil no momento. Acompanho os movimentos dessa madrugada longa, estancando a minha emoção com a leitura e com essa tentativa de registrar a minha angústia.

Os anos passam em minha mente como numa retrospectiva. Quando Paulo Renato assumiu o MEC, no primeiro dia do governo FHC, permanecendo no cargo até a despedida do presidente em janeiro de 2003, fez história, como o ministro da Educação mais longevo desde Gustavo Capanema, na Era Vargas. Paulo Renato ocupou o segundo lugar em permanência a frente do MEC em toda a história do Brasil. Mas nunca antes na história deste país houve um ministro da Educação que promovesse mais mudanças do que Paulo Renato.

Gaúcho, economista e professor universitário na Unicamp, Paulo Renato foi catapultado para transformar a coisa pública durante o governo restaurador de São Paulo (Franco Montoro). Nesse período assessorou José Serra na Secretaria de Estado do Planejamento, dividindo sala com Barjas Negri (atual prefeito de Piracicaba) e Raul do Valle (atual assessor da secretaria de recursos hídricos do Estado). Depois assumiu a presidência da Prodesp (Companhia Estadual de Processamento de Dados), a Secretaria da Educação e a reitoria da Unicamp.

Quadro técnico de primeira foi para Washington, responder pela Vice-Presidência de Operações do BID (Banco Interamericano para o Desenvolvimento), de onde retornou para coordenar o programa de governo do então candidato a presidente da República, FHC. No MEC, comandou a Educação como uma urgência do Brasil, priorizando o ensino fundamental, com a criação do Fundef (Fundo de Desenvolvimento da Educação e Valorização do Magistério), a nova LDB (Diretrizes e Bases da Educação), os Parâmetros Curriculares Nacionais, o Dinheiro Direto na Escola, a Bolsa Escola Federal.

Não foi fácil lidar com as corporações universitárias, que ele atendeu com um amplo programa de equipamentos e modernização do ensino superior, com incentivo à docência de mestres e doutores que sempre usufruíram dos programas de bolsas da Capes e do CNPq, além criar a implantar um programa nacional de avaliação das universidades públicas e privadas. Cada peça mexida na engrenagem da educação nacional gerava tensão, incompreensão política, reacionarismo principalmente do PT que votava contra todas as iniciativas do MEC no Congresso Nacional.

Paulo Renato entra para a história como o ministro que universalizou o acesso das crianças na escola, encerrando o governo FHC com 98% delas matriculadas e com material didático compatível com as suas idades-séries de aprendizado. Paulo Renato era o meu candidato preferido a presidente da República nas eleições de 2002, mas ele não teve os apoios necessários dentro e fora do PSDB e do próprio governo. Pensou em eleições somente em 2006, quando se candidatou a deputado federal pelo PSDB e se elegeu com mais de 120 mil votos. No Congresso Nacional, a sua integridade pública e autenticidade política falaram mais alto, principalmente quando revelou a todos nós o descompromisso da maioria do parlamento brasileiro com a Educação. Decepcionado, deixou a Câmara dos Deputados para assumir novamente a Secretaria de Estado da Educação de São Paulo, no governo de José Serra, com ânimo de não voltar mais ao mandato ou de disputar a reeleição.

Nos últimos tempos, Paulo Renato havia se afastado das atividades governamentais e partidárias. Nossa última conversa sobre o tema me desanimou e angustiou. Ele disse que radicalizaria na sua dedicação às consultorias privadas e me pediu para dizer que não militaria mais no partido, nada especificamente contra o PSDB, mas porque já não acreditava tanto que era possível realizar mudanças somente pelo caminho da política, dos partidos, do parlamento.

Agora, Paulo Renato morre, sem se despedir.

Sei que a história fará justiça aos seus feitos! Descanse em paz, Paulo Renato!

Ilustração: foto de Beto Barata/AE – 10.04.2007

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  1. Um excelente Ministro. Educador nato hábio e sabio em gerenciar uma equipe e planejar em busca de resultados

    Hoje o Ensino Superior está possibilitado através do ENEM e do financiamento dos estudos. Conquista e luta de Paulo Renato

    Se hoje a discussão é quanto a melhoria da qualidade de nossa Educação, não me esqueço nos anos 90 era ainda grande a falta de vagas e acesso aos alunos. Os alunos especiais passaram a estar nas Redes de Ensino.

    Muito tem-se a melhorar mas a Base foi feita lá trás. Planejada e implementada inicialmente pelo Paulo, por você raul, pelo Floriano e por toda uma equipe valorosa que hoje faz falta em um MEC sem musculatura e agilidade.

  2. Ana comentou:

    Raro hoje em dia ver alguem como PRS; tive o prazer de conehce-lo por sua recomendação, Raul. Coisa triste isso. O que se passa com a Divindade, um mundao de gente por ai que sabemso poderiam ja ter passado desta para outra e no entanto ainda estao ai.

  3. Alexandre Ribeiro Mustafa comentou:

    Um grande democrata e republicano. Estamos em luto.

  4. Tive o prazer de conhecer pessoalmente e estar com Paulo Renato em Cubatão no dia da inauguração da que hoje é a UME Dr. Ulysses Guimarães na Vila Natal. Um homem simples, mas detentor de uma formação e conhecimento invejáveis o que o credenciou a ser o 2º Ministro da Educação que mais tempo ficou no Ministério, como disse o amigo Raul, onde fês grandes transfornações para melhorar o ensino no país.Foi um dos poucos que saiu das palavras às ações, prdicado difìcil de se encontrar em pessoas nomedas para o cargo.
    A sua passagemprovoca, realmente uma grande comoção e deixa o país um pouco órfão de grandes educadores.

  5. Darlan comentou:

    Mestre Raul(é assim que chamo)a minha proximidade de vc e nossa amizade, sei o quanto deve está triste,pois presenciei a forma que sempre exaltou o ex Ministro Paulo Renato,e vindo de vc ,uma pessoa do mesmo nivel.
    Neste momento so quero prestar minha solidariedade e conforto.

  6. dulce ceneviva comentou:

    Raul, por seu intermédio, ampiei meu contato com ele. Perdemos todos, nós do PSDB, e nós educadores.Perde o país.

  7. Ernesto Donizete da Silva comentou:

    Ao ler a matéria nos jornais matutinos, de imediato procurei o seu blog, pois tinha certeza de uma imediata manifestação de pesar seria postado, dada a proximidade existente entre vocês.

    Realmente, PAULO RENATO, abriu caminhos novos na educação, e criou assim um novo paradigma, que veio a favorecer inúmeros brasileiros, os quais até então, não tinham acesso ao sistema educacional. Abriu fronteiras!

    Obviamente lamentamos a perda prematura deste valioso tucano, mas como todo professor, que adora a arte de ensinar, me atrevo a dizer, que deixou no ato de sua morte fulminante, mais uma lição: a de nos lembrar da importância de manifestar nosso apreço e interagir com as pessoas que nos são importantes no nosso viver – pois assim como ocorreu, podemos perdê-las sem qualquer aviso.

    Meus respeitos e condolências a todos os familiares e amigos.

    Ernesto Donizete da Silva
    PSDB/Santos

  8. Vera Leon comentou:

    Raulzito querido.
    Nenhuma palavra que eu diga vai acrescentar reverência e sentimento à figura Paulo Renato, político e homem. Durante nossa longa temporada em Brasília, testemunhei sua admiração e respeito por ele, fosse naquela sala grudada ao gabinete dele, no MEC, fosse nas conversas informais onde a Educação sempre foi seu tema mais envolvente. Do mesmo jeito como estive ao seu lado naqueles tempos lá, hoje também o acolho num abraço. E diria, como John Donne, que a morte de um homem nos diminui porque somos parte do gênero humano. Sem Paulo Renato, estamos muito, muito menores.

  9. carmen maria guerrero ianovali comentou:

    Na gestão do Secretário da Educação Paulo Renato (governo Franco Montoro),falo como educadora da Secretaria de Estado da Educação,foi o nosso último bom momento da Educação Paulista.Estamos hoje de luto, perdemos um grande homem público,um grande líder.

  10. Valente comentou:

    Caro Raul, a minha vinda para o MEC se deu sob o comando do nosso grande Chefe. Fazer parte de sua equipe no Ministério foi uma grande honra e o choque com a notícia da sua morte foi enorme. O Brasil perde muito com sua partida e espero que a lição por ele deixada dê fruto na mente de cada uma das pessoas envolvidas com a educação. Triste, meu caro, muito triste. Abraço.

  11. helio comentou:

    Triste, Muito triste a perda do melhor Ministro de educação que este pais já conheceu !!!
    As mudanças !!! E que mudanças feitas por ele e sua equipe nos Gov.. F.H.C. , as que nao foram descontinuadas ou simplesmente destruídas por este lixo que sucedeu no MEC mas…
    Abraços fortes de um admirador fiel.

  12. isaias andrade comentou:

    um grande artigo sobre um grande homem! nimguem mais que vc ” raul ” pra mostra a pessoa que era Paulo Renato !!!

  13. André Caetano comentou:

    Caro Raul: além de tudo que Paulo Renato fez ou projetou, lembro-me dele de um encontro promovido no Bar da Praia, em Santos, e de reuniões de negociação e orientação sobre a elaboração do Estatuto do Magistério, no Governo Montoro, quando se destacou com sua SINCERIDADE! Momentos curtos que guardam singela lembrança…
    Faltam mais homens públicos , como ele, Montoro e Mario Covas.

  14. Alfredo de Souza comentou:

    Raul, tive o prazer de conhecer o Paulo Renato quando em viagem com o saudoso e querido Rubens Lara na Unicamp, quando foi um excelente anfitrião mostrando técnicas de despoluição e construção de casas populares. Saí de lá impressionado com a figura dele. No Governo Federal deu vários exemplos no Ministério da Educação, do qual presenciaste diretamente. Homem público digno e exemplar. Lamentavelmente uma enorme perda para o Brasil.

  15. Suzete comentou:

    Como ministro da Educação realmente fez e ficará na História da Educação.

  16. EDMILSON BAREIA comentou:

    CARO RAUL,
    TODOS OS ANOS DO MINISTRO PAULO RENATO À FRENTE DO MEC ESTIVEMOS JUNTOS. VOCÊ ESGOTOU O ASSUNTO DO QUANTO ELE ESTEVE À FRENTE DE TUDO,NO SEU TEMPO.
    NÓS,OS EXECUTORES, CONHECEMOS UMA POUCO MAIS DE PERTO A GARNDEZA DO QUE ELE IMPLANTOU. NUNCA HOUVE ALGUÉM TÃO SINTONIZADO COM O QUE HAVIA DE MELHOR NO MUNDO TENTANDO IMPLANTAR NO BRASIL. LEMBRO-ME DA REVOLUÇÃO QUE FOI A ANTENA PARABÓLICA, HOJE SIMPLES, COMO INSTRUMENTO DE COMUNICAÇÃO ENTRE O MEC E TODAS AS ESCOLAS DO BRASIL, ALGO JAMAIS VISTO.
    DO PROGRAMA TODA CRIANÇA NA ESCOLA, UMA VERDADEIRA REVOLUÇÃO, QUE PARTICIPEI.
    COMO TODOS, FIQUEI CHOCADO. FOI EMBORA CEDO DEMAIS. NOSSO ÚLTIMO ENCONTRO FOI NA FIESP, PERGUNTOU POR TODOS DA EQUIPE DE COMUNICAÇÃO DA ÉPOCA.
    E COMO VÍNCULO, FICOU VOCÊ, MEU QUERIDO AMIGO.
    ABRAÇOS,COM PEZAR, MEU CHEFE!

  17. Ivana Santos comentou:

    Raul, sem palavras para traduzir meu sentimento de perda, o choque que tive ao abrir as notícias pela manhã. Eu creio que se Deus o levou tão cedo é porque está precisando dele para uma grande missão lá no céu, onde provavelmente se unirá ao nosso inesquecível Mário Covas.

  18. marcelo santa cruz comentou:

    É a transitoriedade da vida, cada dia que se passa em nossa existencia pode ser o penultimo, só Deus sabe.Sou vereador do PT Cidade de Olinda, nunca tive nenhuma identidade ideológica com Paulo Renato, mas essa minha condi’~ao nao impossibilita de reconhecer que se tratava de homem público que prestou relevantes serviços a Nação Brasileira e que fará muita falta tendo em vista que tinha muito a contribuir, especialmente na area da Educação. Meus sinceros sentimentos

  19. Um grande abraço a todos da nossa equipe do MEC que hoje chora pela perda do chefe serio, incansável, homem de fibra que lutou muito por uma educação de qualidade. Paulo Renato foi um grande exemplo e deixou marcas solidas na educação do nosso pais. Segura na mão de Deus chefe…Ate um dia!!! Sempre lhe admirei muito.

  20. Gerson Rozo, advogado comentou:

    Raul, a vc, meu caro, meu abraço; meus sentimentos a familiares e amigos do ministro Paulo Renato, pela sentida perda. GR

  21. Não convivi com o PRS nos tempos de ministro, pois estava começando a carreira naqueles tempos. Mas posso dizer que se hoje sou consultor, professor e pesquisador, foi porque ele era reitor e fez uma revolução na UNICAMP, me atraindo para estudar em uma universidade de ponta. Sem dúvida, era um cara com uma visão única.
    Fiz um post em homenagem a ele no meu blog: http://semmedodepolemica.blogspot.com/2011/06/um-adeus-um-grande-lider.html

  22. Ana Paula Fayão comentou:

    Estou até agora muito chocada e triste. Foram muito bons nosso tempo de MEC. Erámos uma equipe unida, feliz e aprendi muito neste tempo. Sou grata a todos da equipe por hoje saber que fiz parte da revolução na Educação no Brasil e de ter tido um chefe igual ao Ministro Paulo Renato, que sempre terei uma admiração muito grande. Que Deus esteja com ele. Saudades eternas. Um abraço forte, Ana Paula

  23. José Carlos Silvares comentou:

    Caro Raul,
    parabéns por seu artigo sobre o Paulo Renato. Li logo cedo na Tribuna e agora aqui no seu blog. Ninguém melhor do que você, aqui na terra, para dizer o que disse, com profundidade e exatidão, a respeito de um grande brasileiro que se vai.
    Mas me chama a atenção seu penúltimo parágrafo, quando diz textualmente: “Nos últimos tempos, Paulo Renato havia se afastado das atividades governamentais e partidárias. Nossa última conversa sobre o tema me desanimou e angustiou. Ele disse que radicalizaria na sua dedicação às consultorias privadas e me pediu para dizer que não militaria mais no partido, nada especificamente contra o PSDB, mas porque já não acreditava tanto que era possível realizar mudanças somente pelo caminho da política, dos partidos, do parlamento”.
    Tenho lido e observado que, nos últimos tempos, mais gente do quilate do Paulo Renato tem se afastado, dando espaço a uma corja que diariamente estampa (ou enlameia) o noticiário, nos mais diferentes campos.
    É de lamentar que os bons desistam, por desacreditar.
    Seu penúltimo parágrafo também me angustiou. Abraço.

  24. sergio g. comentou:

    amigo Raul: fiquei surpreendido, onte, com a notícia via TV da partida do seu grande amigo e chefe PRS. Tenho certeza de sua dor! Mas, lembremos todos de que não podemos fugir, nesta caminhada, de 2 certezas: a chegada e a partida. Desses eventos ninguém escapa. Analisemos apenas que o PRS tenha saído para uma viagem mais longa que o habitual. Sua coragem (especialmente ao enfrentar os ditos “movimentos sociais”) era admirável, tanto quanto seu conhecimento e eficiência administrativa.
    RECEBA VOCE MEU ABRAÇO AMIGO; recebam seus familiares o NOSSO abraço de amparo e apoio.

  25. Fui hoje ao Cemitério do Morumbi, às 10h, me despedi do ministro Paulo Renato, com quem trabalhei de 1.997 a 2002, tendo sido seu secretário particular- adjunto, quando do afastamento do titular, meu amigo Raul Christiano, por motivo de doença. Paulo Renato deixa o exemplo do ministro que universalizou o acesso ao ensino fundamental no Brasil. Particularmente, me orgulho de ter participado do Programa Toda Criança na Escola, que elevou para 97% o percentual de crianças de 7 a 14 anos na Escola. Também foi o ministro que ampliou o Bolsa Escola (atual Bolsa Família) implantou o Provão, o sistema de avaliação do ensino superior, ampliou a rede de escolas técnicas por todo o país, enfim, medidas mantidas pelos dois Governos Lula e agora pela Presidente Dilma. Paulo Renato deixa o legado de um homem público correto, um quadro técnico da melhor qualidade e para nós todos que com ele trabalhamos, um exemplo de retidão e seriedade. Descanse em paz, ministro Paulo Renato. Minhas condolências – transmitidas pessoalmente hoje ao seu filho Renato – e a toda a família.

  26. Orlando Pilati comentou:

    Meu caro Raul, sem querer fazer mais uma elegia a quem combateu um bom combate, não posso deixar de registrar meu abraço a você, aos familiares de Paulo e a outros amigos que fiz pelo fato de ter trabalhado com ele em uma de suas propostas. Há alguns anos tive uma rápida conversa com ele num aeroporto de São Paulo, durante o período de sua candidatura a deputado federal. Nas minhas andanças pelo meio acadêmico e em algumas instâncias ministeriais de governos posteriores, conheço e vivi o que você chama de “tensão, incompreensão política, reacionarismo” irracional ou interesseiro foi enfrentado pelo Paulo Renato em todas as iniciativas de mudança e nas drásticas e importantes inovações no financiamento da educação básica pública. Descrente, eu dizia: só acredito que alguma coisa será feita de positivo se ele conseguir mudar o clientelismo estrutural no financiamento da educação fundamental. E conseguiu, a ponto dos principais críticos, sem admitirem, ampliarem essas medidas para o financiamento da educação básica. Eu já atuava no antigo Inep quando o grande mestre Jocimar Archangelo ( além da afável Gilda e dinâmica Maria Helena, ou do amigo Tancredo) me convidou para compor, junto com outros técnicos, a pequena equipe que iniciou a estruturação e coordenou o Exame Nacional de Cursos (ENC), apelidado de Provão, que balançou a educação superior brasileira, trazendo para primeiro plano a questão da qualidade nos cursos de graduação. Ao longo de toda sua gestão, Paulo Renato soube sempre, por um lado, nos colocar desafios e objetivos claros, de outro, respeitar ao pé da letra as propostas de caráter técnico formuladas pela equipe ou pelos professores especialistas por nós mobilizados em todas as áreas. Houve momentos de discordâncias e de contraditórios, mas Paulo Renato nos propiciou a oportunidade de, pela primeira vez, um ambiente democrático e eficiente de mudanças. Obrigado, Paulo Renato. Meu abraço solidário aos seus familiares.

  27. Orlando Pilati comentou:

    Meu caro Raul, sem querer fazer mais uma elegia a quem combateu um bom combate, não posso deixar de registrar meu abraço a você, aos familiares de Paulo e a outros amigos que fiz pelo fato de ter trabalhado com ele em uma de suas propostas. Há alguns anos tive uma rápida conversa com ele num aeroporto de São Paulo, durante o período de sua candidatura a deputado federal. Nas minhas andanças pelo meio acadêmico e em algumas instâncias ministeriais de governos posteriores, conheço e vivi o que você chama de “tensão, incompreensão política, reacionarismo” irracional ou interesseiro que foi enfrentado pelo Paulo Renato em todas as iniciativas de mudança e nas drásticas e importantes inovações no financiamento da educação básica pública. Descrente, eu dizia: só acredito que alguma coisa será feita de positivo se ele conseguir mudar o clientelismo estrutural no financiamento da educação fundamental. E conseguiu, a ponto dos principais críticos, sem admitirem, ampliarem essas medidas para o financiamento da educação básica. Eu já atuava no antigo Inep quando o grande mestre Jocimar Archangelo ( além da afável Gilda e dinâmica Maria Helena, e do amigo Tancredo) me convidou para compor, junto com outros técnicos, a pequena equipe que iniciou a estruturação e coordenou o Exame Nacional de Cursos (ENC), apelidado de Provão, que balançou a educação superior brasileira, trazendo para primeiro plano a questão da qualidade nos cursos de graduação. Ao longo de toda sua gestão, Paulo Renato soube sempre, por um lado, nos colocar desafios e objetivos claros, de outro, respeitar ao pé da letra as propostas de caráter técnico formuladas pela equipe ou pelos professores especialistas por nós mobilizados em todas as áreas. Houve momentos de discordâncias e de contraditórios, mas Paulo Renato nos propiciou a oportunidade de vivenciar, pela primeira vez, um ambiente democrático e eficiente de mudanças. Obrigado, Paulo Renato. Meu abraço solidário aos seus familiares.

  28. Sandra Wenzel comentou:

    Paulo Renato de Souza, um dos poucos políticos que sabia “a quê” veio.
    Fica no país uma lacuna, dificilmente preenchida.

  29. Escrevi o artigo que segue para a edição do dia 01 de julho de 2011, do jornal “Povo de Cubatão” – http://www.povodecubatao.com.br. Acrescento à consideração e debate dos leitores deste blog:

    Um Ministro por Cubatão!

    No último final de semana fui surpreendido com uma notícia muito triste: perdi um amigo, companheiro de lutas e o melhor chefe. Refiro-me ao ex-ministro e ex-secretário da Educação, Paulo Renato Souza. Mas os meus leitores devem estar pensando o quê me levou a escrever sobre ele neste espaço do jornal “Povo”, se na maior parte das vezes me ocupo de assuntos relacionados à cidade e à região da Baixada Santista.

    Pois é, o professor Paulo Renato teve uma relação histórica muito importante com Cubatão e eu não poderia omitir esse fato. Há pessoas que trabalham nos bastidores para que a engrenagem funcione de maneira eficiente, e Paulo Renato foi uma delas, quando o governo do Estado era comandado pelo também saudoso Franco Montoro, nos idos de 1983.

    Naquela ocasião, Cubatão ocupava as páginas dos jornais e os meios de comunicação de todo o Mundo, como a cidade mais poluída, um verdadeiro “Vale da Morte”. Pesquisadores, cientistas, entidades ambientais, sindicatos, igrejas e alguns políticos estavam debruçados em virar essa página negativa para a sobrevivência desta cidade. Isso afetava a imagem da cidade e ofendia a auto-estima dos cubatenses, porque era alvo de comentários preconceituosos, além de sofrer na pele e nos pulmões as chagas da poluição.

    A Cetesb, uma agência ambiental respeitada atualmente, não era considerada na época da ditadura e enfrentava dificuldades para exigir medidas saneadoras no Pólo Industrial, apesar do diagnóstico dos seus técnicos sempre competentes. Recordo que houve uma CEI (Comissão Especial de Inquérito) na Assembléia Legislativa de São Paulo, com a participação de dois deputados estaduais da região, na época – Rubens Lara e Emílio Justo, que concluiu entre outras medidas responsáveis, pela extinção da própria Cetesb.

    Os ex-vereadores Florivaldo Cajé, Romeu Magalhães e Mychajlo Halajko podem testemunhar isso. Eles talvez ignorassem que Paulo Renato, assessor do Secretário de Estado do Planejamento (José Serra) de Montoro, fosse o técnico responsável pela elaboração do projeto de captação de recursos com o Banco Mundial, que foram repassados às indústrias como parte apoio estatal ao Programa de Controle da Poluição Ambiental – Procop da Cetesb, a partir de 1984.

    Paulo Renato vinculou-se assim com o início da solução do maior problema já vivido por Cubatão, que até então lançava diariamente no ar quase mil toneladas de poluentes, das quais 250 toneladas de pó, que colocavam em perigo a saúde dos trabalhadores e da população que morava perto das indústrias.

    Ainda no Governo Montoro, Paulo Renato, secretário da Educação, melhorou as instalações da Escola Estadual da Cota 200. Depois, como ministro da Educação, durante os oito anos do Governo FHC, garantiu a permanência da Escola Técnica Federal (Cefet-Cubatão) com prédio próprio e os estudos avançados para se criarem cursos de formação de Tecnólogos; a construção da Escola Caic Ulysses Guimarães; a permanência da Escola da Emae (antiga Light); ônibus para o transporte escolar e os primeiros benefícios da Bolsa Escola Federal na região.

    Cubatão tem motivos de sobra para se orgulhar do apoio e da vida de Paulo Renato, um homem que abriu as portas e atendeu esta cidade, durante muitos anos.

  30. Wilson Sérgio Pedroso Júnior comentou:

    PAULO RENATO “Fala seu Wilsinho”

    Por: Wilson Sérgio Pedroso Júnior

    Era desta forma carinhosa que a cada encontro ou ligação ele me recebia. Esta semana perdi um amigo, chefe, pai postiço e minha grande bússola. Ele sempre gostava de brincar dizendo que eu não sabia nem arrumar namorada, pois foi através dele que conheci Thais, minha esposa. Entre todas as palavras de conforto que recebi esta semana, uma eu gravei: “muitos falharam com o ex-ministro, você nunca”.

    Paulo Renato era não só um chefe, mas um verdadeiro líder. Atencioso, generoso e muito competente. Ele sempre foi meu eterno chefe e também um grande amigo.
    Na semana retrasada Paulo fez questão de dar um pulo em casa para trazer seu carinho em meu aniversário. Passamos boas horas juntos, estava muito animado, com novas idéias, desafios profissionais e em fase também de avô babão.

    Ele era genial e um dos melhores seres humanos que conheci. E aqui, gostaria de homenagear o homem publico com H maiúsculo que Deus me deu oportunidade de conviver, lembrando um pouco de sua belíssima trajetória.

    Foi gerente de Operações do BID, Secretário da Educação no governo Franco Montoro e reitor da UNICAMP.

    Durante os anos 70, serviu à OIT, como diretor-associado do Programa Regional do Emprego. Formado em Economia pela UFRGS, obteve o seu mestrado na Universidade do Chile e doutorado na Unicamp – na qual também tornou-se professor – titular de Economia.

    Foi Ministro da Educação dos oito anos do governo Fernando Henrique, Na democracia foi o ministro que mais tempo ficou na educação, onde fez uma revolução gerenciada: Aprovou a nova Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, criou o Fundef que colocou todas as crianças na escola, e distribuiu mais recursos e descentralizou o ensino fundamental. Criou sistemas de avaliação como o ENEM e o SAEB.

    Foi responsável pelo maior programa de distribuição de renda do país: o Bolsa Escola do qual tive o prazer de fazer parte da equipe junto com o hoje vereador Floriano Pesaro e Raul Christiano. Trabalhamos madrugadas inteiras implantando o programa em todo o país, o qual o governo Lula mudou o nome para “Bolsa-Família”.
    Por estas e outras realizações a maioria dos educadores afirmam que a educação tem dois períodos: o antes de Paulo Renato e o depois.

    Em 2006 foi eleito deputado federal pelo PSDB. Tive a honra e o prazer de ter sido seu chefe de gabinete na Câmara. Licenciou-se do mandato para assumir a secretaria de Educação do Estado, no governo José Serra.

    Hoje ele se junta ao meu pai, onde os dois juntos devem estar dizendo: “Fala seu Wilsinho”.

    (*) Wilson Sergio Pedroso Junior Administrador Público e Ex-Subprefeito de Vila Prudente/Sapopemba

  31. Paulo Renato: a competência generosa

    Por: José Serra

    Publicado no Estadão.com.br em 26/06/2011 sobre o ex-ministro Paulo Renato Souza, que faleceu na noite de sábado aos 65 anos

    “Zé, vou te dizer uma coisa: poucas vezes estive tão bem, tão feliz, como agora.” Ouvi isso do Paulo Renato num momento do balanço de vida que fizemos na noite do domingo passado, no seu apartamento. O pretexto do encontro foi a reativação do Instituto Social-Democrata, que ele presidia. Mas esse tema exigiu pouco das três ou quatro horas em que lá estive.

    Ele acabara de voltar de um hospital de Porto Alegre, onde fora acompanhar a mãe, que tinha sofrido uma cirurgia. O relato da viagem deu lugar a uma conversa descontraída, sem agenda, de amigos antigos e profundos, com um pouco sobre tudo — o estado das artes de cada um de nós, a situação dos filhos, episódios comuns do passado, pessoas que desapareceram prematuramente e até a saúde pessoal dele.

    Ali estava o Paulo, fisicamente bem disposto, animado com o novo trabalho e, naquela altura da vida, sem amarguras ou ressentimentos, satisfeito com o que fizera pela educação no Brasil e em São Paulo, entusiasmado com a visita da sua filha mais jovem, que mora no México, com seus dois netos, mostrando-me até o quarto que tinha preparado para hospedá-los. Aliás, ele sempre foi um pai atento e carinhoso com seus três filhos.

    Uma das virtudes do Paulo Renato sempre foi o espírito prático – estudar bem os assuntos, avaliar, fazer acontecer. Mostrou isso como aluno no curso de pós-graduação de economia da Universidade do Chile, funcionário qualificado da OIT na área de políticas de emprego, professor universitário, presidente da Associação de Docentes da Unicamp, membro da equipe da Secretaria de Planejamento, presidente da Prodesp (Companhia de Processamento de Dados do Estado de São Paulo), secretário de Estado, Reitor da Unicamp, gerente de operações do Banco Interamericano de Desenvolvimento e coordenador do programa de governo do candidato Fernando Henrique Cardoso na campanha eleitoral de 1994. Atuou da mesma maneira no MEC, na Secretaria da Educação em São Paulo e como deputado federal na última legislatura.

    Ele tinha enorme capacidade para aprender questões novas para organizar propostas ou decisões. Lembro-me de dois exemplos menores, mas muito ilustrativos. Professor da Unicamp num certo período, coordenou pesquisas para a Coalbra, empresa federal presidida pelo Sérgio Motta, ainda no governo Figueiredo, em plena crise do petróleo, destinada a implantar fábricas de extração do álcool da madeira no Brasil! Num projeto sobre Reforma Tributária, começo dos oitenta, organizado por mim no Cebrap, coube ao Paulo uma das partes mais difíceis: diretrizes para distribuir 20% do então ICM entre municípios de um Estado, fora dos critérios do valor adicionado por cada um deles. Ele não era versado em sistema tributário, muito menos no tema que lhe coube: pouco conhecido, difícil, importante, mas chato. Em pouco tempo, porém, conseguiu sintetizar o assunto e fazer uma proposta engenhosa.

    Paulo Renato foi o segundo ministro da Educação mais longevo de nossa história – durante os oito anos de mandato de Fernando Henrique Cardoso —, ficando atrás apenas de Gustavo Capanema, durante a ditadura do Estado Novo. Sua gestão fez enorme diferença para a educação brasileira. Ele conseguiu aprovar a nova Lei de Diretrizes e Bases da Educação e abriu o caminho para as grandes avaliações sobre a situação do nosso sistema de ensino, criando o ENEM e o SAEB, inicialmente tão hostilizados pelas corporações mais partidárias (e reacionárias) da área educacional.

    Com sua equipe, Paulo Renato concebeu e implantou o Fundef — marco do reforço da educação básica no Brasil, e contra o qual votaram as bancadas do PT da Câmara e no Senado. O fundo levou mais recursos e descentralização para o ensino fundamental e associou-se a uma das fases de maior expansão do número de crianças na escola, que chegou no limiar dos 100% — ou seja, à universalização do ensino básico. Foram dele, também, o estabelecimento dos Parâmetros Curriculares Nacionais, o primeiro programa de disseminação massiva do Ensino Técnico no Brasil e a criação do programa Bolsa-Escola, que, junto com a Bolsa Alimentação e outros programas do período, deram lugar ao Bolsa Família. Note-se que o Bolsa-Escola partiu do zero e avalie-se, então, o tamanho da competência dos seus gestores iniciais, que o implantaram, com o ministro Paulo Renato à frente. Por último, apesar da badalação do governo Lula em relação às universidades federais, Paulo Renato pôde registrar que, durante o governo de Fernando Henrique, o crescimento de matrículas foi de 6% ao ano, contra 3,2% entre 2003 e 2008 – seis anos do governo seguinte.

    No seu segundo período como secretário da Educação em São Paulo — tinha sido secretário também do Franco Montoro —, entre 2009 e 2010, quando fui governador, Paulo Renato construiu os pilares das reformas mais profundas em nível estadual já feitas no Brasil nas últimas décadas – iniciadas, diga-se, antes de ele assumir a secretaria por pessoas de sua equipe no ministério, como a Maria Helena Castro. Entre muitas outras coisas, foi introduzido o mérito – avaliado individualmente e por meio de resultados — como fator relevante de promoção e remuneração. Foi consolidado o programa Ler e Escrever (incluindo a elaboração de material didático para alunos e professores) e criada a Escola do Professor, que ministra quatro meses de cursos posteriores à aprovação de candidatos nos concursos do magistério, a fim de aprimorar suas condições pedagógicas.

    Na secretaria, Paulo mostrou mais uma vez quatro outros atributos que marcaram sua vida pública: saber juntar gente preparada para acompanhá-lo; não temer dar-lhes oportunidades de realização e prestígio; manter-se calmo em momentos difíceis e ter coragem de impulsionar mudanças complexas e fundamentais, correndo riscos e enfrentando interesses. Não se creia que era politicamente inábil. Ao contrário, sabia persuadir e negociar com adversários, até em razão de sua atitude de respeito aos outros, paciência infinita e personalidade cordial, sem falar do seu espírito prático. Oitenta por cento das tensões havidas na área educacional durante essa fase das reformas deveram-se a motivações puramente eleitorais, em face da sucessão presidencial e estadual.

    No encontro de domingo à noite, evocando sua passagem pelo Institute for Advanced Study de Princeton, onde eu morava e trabalhava, durante todo o verão de 1977, Paulo lembrou da motivação original da viagem: operar os olhos de dois de seus três filhos, feridos pela explosão de um artefato deixado num lugar descampado pelo militares que promoveram o golpe de 1973 no Chile, em alguma de suas ações de controle de território ou pura repressão. Num passeio campestre de toda a família, em 1975, ocorreu a tragédia, por sorte sem consequências graves no longo prazo.

    Eu sugeri que ele escrevesse sobre esse período (e outros) de sua vida e relatasse, do seu ângulo, a experiência que viveu no Chile do general Pinochet, incluindo suas ações de solidariedade aos perseguidos na época, como eu próprio. Ele respondeu que seria até prazeroso fazê-lo, que já tinha até pensado em anotar fatos e ideias. Quis a fatalidade que isso agora fique por conta dos seus amigos. O relato de uma vida que fez tanto bem ao nosso povo.

  32. Lendo seu Blog, consigo acompanhar a dimensão desse laço político, de trabalho e amizade.
    Ter referências e admirá-las na trajetória da vida a torna mais leve.
    Viva e reviva tudo que deixa saudade…
    Registre sempre, grande poeta e jornalista Raul, Beijo!

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