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Blog do Raul

Minha mãe morreu com Alzheimer

Esta semana foi triste para mim. Perdi minha mãe por inteiro, no alto dos seus 80 anos de mulher feliz com as coisas mais simples da vida. Fazia pelo menos 10 anos, que ela lutava para se desvencilhar de um "alemão" degenerativo, Alzheimer, que tomou para si, por mais doces que fossem, as suas lembranças do presente. Para nós, seus filhos, restavam mergulhar nas experiências passadas, para ter a sensação de que continuávamos juntos em algum momento do quê lhe sobrara de vida, de mãe presente.

Sei muito bem que não sou o único filho a conviver com a experiência de pais com a Doença de Alzheimer. Sempre que questionado do seu paradeiro pelos amigos mais próximos, dada a minha relação afetuosa e cúmplice de Dona Dedé (Lygia de Oliveira Sanchez), revelava que ela estava "vivendo" o terceiro estágio da doença e a esta altura cuidada em uma clínica especializada em Santos.

A Doença de Alzheimer se divide em três estágios: leve, moderado e grave. Cada estágio pode durar alguns anos. Conforme explicação dos médicos que acompanharam Dona Dedé, desde o início, e também dos manuais e matérias pela imprensa disponíveis, o Alzheimer "conquista" aos poucos os seus pacientes, dificultando a sua cognição (pensamento), com os padrões de comportamento e com a rotina diária. Esses padrões abrangem a personalidade, o humor, o nível de atividade e as percepções do ambiente. À medida que a doença evolui, "o indivíduo afetado depara-se com mais e mais desafios nessas áreas".

Desse modo fui perdendo a interessada Dedé, que era uma mulher ativa e, apesar da sua pouca escolaridade (sábia como toda mãe foi a responsável pelo início de minha alfabetização em uma cartilha do seu tempo de menina), tinha fome de informação e não escondia o seu prazer com as descobertas e facilidades do mundo além de Brotas (ela nasceu no Interior de São Paulo e vivia em Santos desde 1971).

Quando começou a "trair" meu pai (Christiano Sanchez, falecido em 2004) com Alzheimer, nossa família foi surpreendida pelo seu comportamento. No passado (ainda hoje há quem se confunda no diagnóstico, apesar da elevação dos níveis de informação sobre o tema), o seu novo comportamento lembrava o quê era mais fácil de ser taxado de esclerose; até brincávamos quando ela esquecia de alguns acontecimentos mais recentes (ih, mãe, você precisa tomar "memorioton"). Éramos alegres ignorantes no assunto Doença de Alzheimer.

Então, para compartilhar um pouco as informações sobre a vida de minha família nos últimos dez anos, faço questão de registrar a dedicação de minha irmã Analúcia, que liderou o papel de "cuidadora" de mamãe, na maior parte das vezes impedida de atender à sua própria casa, seu marido e filhos. Para que o leitor "ignorante no assunto Alzheimer" tenha uma noção real dessa parte da vida de minha irmã, só posso confirmar que "cuidar de alguém com esse tipo de demência é física e mentalmente esgotante".

Analucia viveu nesses últimos anos da presença de minha mãe entre nós, num verdadeiro estado de suspensão, sobressalto constante, justamente porque as soluções que se apresentavam para um momento eram impossíveis de considerar como norma para depois. Nada poderia ser programado, além da necessidade de estar presente, à sua mão. Analucia não cuidou mais de si mesma e agora precisa refazer o seu caminho nesta vida. Estamos apoiando o seu renascimento, aos 45 anos de idade.

Por fim, apesar de reconhecer todos os sintomas do Alzheimer em Dedé, responsável pela sua "morte" faz pelo menos três longos anos, pensava que estaria preparado para o final, quando seria uma "libertação" para si mesma. Ingenuamente achava que ela deixaria de sofrer e de nos fazer assistir ao seu sofrimento. Não é bem assim, queria mesmo Dedé perto de mim. Saudades!

Nota: Dedé faleceu no último dia 7 de novembro, em Santos, por insuficiência cardíaca, não de Alzheimer. 

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52 comentários em “Minha mãe morreu com Alzheimer”

  1. Digo a minha mãe todos os dias que vale a pena estar nesta vida. Ela gosta de ouvir isso ! Nós , filhos, somos privilegiados de tê-las no tempo de Deus. Que seja sempre a vontade do Senhor. Linda a estória de Dedé.

  2. Alzheimer deixa a pessoa acamada em seu último estágio e, consequentemente, surgem os problemas de saúde como pneumonia e insuficiência cardíaca… minha mãezinha teve esses dois problemas mencionados acima e outros mais devido ao Alzheimer. Doença triste que nos faz perder nosso ente querido ainda em vida…

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