Não parece curioso o foco da operação "Castelo de Areia" da Polícia Federal, que prendeu diretores da construtora Camargo Corrêa, acusados de realizar doações ilegais para partidos do bloquinho de apoio e da oposição ao governo lulopetista, enquanto a sua única obra superfaturada é de uma refinaria da Petrobrás em sociedade com a estatal de Hugo Chávez, a PDVSA, e o PT foi preservado ? Pois é, explicações à parte, em todas as mídias, e a defesa da "empresa bandida" foi assumida pelo ex-ministro da Justiça do governo Lula, o advogado criminalista Márcio Thomaz Bastos. Quem tiver uma posição definida sobre o tema, não atire a primeira pedra.
As ações espetaculares da Polícia Federal têm causado muito em todo o país. Não se trata objetivamente de uma operação "Mãos Limpas", que poderia virar uma página de tantos maus exemplos, para uma prática moral e ética que envergonharia qualquer cidadão que ousasse pensar em vantagens advindas dos cofres públicos. Mas a nossa consciência vem sendo invadida por um mar de lama sem fim e sem tempo de refletir se há um fio de esperança no final desse túnel. Aposto na esperança, apesar dos pesares.
A classe política volta à berlinda com esse episódio, justamente quando o governo federal aceita que foi um equívoco achar que a crise econômica chegaria ao Brasil como uma "marolinha". Lula perdeu pontos nos seus índices de popularidade e o Congresso Nacional vive num emaranhado de cargos desnecessários de diretores no Senado e sem resposta para os comprovantes do uso dos R$ 15 mil mensais de verbas indenizatórias na Câmara.
Então, porque somente o presidente da República haveria de perder popularidade, mesmo que pontos escassos ? O sistema nacional reage, em plena democracia, contribuindo para desmoralizar instituições que precisam retomar a sua credibilidade, com a exposição do modelo de financiamento das campanhas eleitorais, a promiscuidade de alguns agentes públicos no seu relacionamento com fornecedores e a sensação de impunidade dos poderosos.
Não choca mais o Brasil, quando um senador respeitável como Jarbas Vasconcelos diz que o seu partido, o PMDB, é corrupto. Ninguém duvida que a invasão da Camargo Corrêa, amanhã, será tratada como uma atitude banal, apesar dos aparentes exageros da PF. Com certeza há muitas piadas criadas com os últimos acontecimentos, mas de concreto nada além da tentativa de demolir boas virtudes.
E a prisão da comerciante Eliana Tranchesi ? Exemplar, para assustar sonegadores ? E se a maioria do povo brasileiro decidisse não pagar mais impostos para reduzir as margens de recursos públicos para a corrupção ? Prenderíamos todos por mais de 90 anos ou interpretaríamos essa atitude coletiva de começo de uma revolução popular ?
São muitas questões sem resposta. Por isso volto ao começo desta reflexão, independentemente de uma posição pessoal, política, moral ou jurídica acerca das "ações ilegais" da Camargo Corrêa. Há que se investigar, apurar e esclarecer. Quantos elefantes brancos dormem na memória virtual ou nas páginas dos jornais, sem resposta ?
Ainda bem que o Brasil não perdeu a sua capacidade de indignação. Mas é impressionante a nossa capacidade de aceitar desigualdades sociais e dois pesos e duas medidas na aplicação das leis. Se as doações dos empreiteiros para as campanhas eleitorais no Pará têm recibos comprobatórios e parecem legais, ao contrário do relatório final da operação "Castelo de Areia", porque ficou menor o foco do denunciado superfaturamento de "módicos" R$ 70 milhões na refinaria Abreu Lima, em Suape, Pernambuco, pelas empresas dirigidas pelos afilhados políticos de Lula e Chávez ?
Enfim, por ora disponho dessas idéias-vitamina para o debate …